O futebol francês à beira do colapso: Como a ganância dos direitos de TV destruiu a Ligue 1
Veja o Raio-X completo das causas que ocasionaram a decadência da Ligue 1, que vive efeito dominó desde a pandemia e não consegue atrair investidores. A consequência? O colapso completo de sua tradição
A Ligue 1 cometeu uma das maiores catástrofes financeiras na atualidade, do calote da Mediapro ao colapso do contrato com a DAZN, reduzindo de forma drástica a verba para os clubes. Sem a verba de transmissão que financiava entre 40% e 60% dos orçamentos, clubes históricos sem capital estrangeiro ilimitado entraram em insolvência ou recuperação judicial. Te convido através deste trabalho ver o passo-a-passo da queda meteórica de uma liga tradicional europeia
A era de estrelas
Essa história começa no ano de 2020, a Ligue 1 viria para uma temporada recheada mais que nunca de estrelas, entres eles o PSG do trio mágico de Messi, Neymar e Mbappé além de Di Maria e Cavani, o Lyon de Depay e Aouar, o Marseille de Payet, o Mônaco de Fábregas e Tchouaméni, e por aí vai. As expectativas eram altíssimas, e a liga sabia que podia lucrar com tantos nomes de alto nível, aí entra a peça central do tabuleiro.

O acordo que levaria à ruína
O pilar do acordo era o grupo MEDIAPRO, com sede em Barcelona que já possuía grande experiência no meio, e a figura do astro francês Killian Mbappé. Os espanhóis são líderes em serviços de produção técnica e de transmissão satelital, com operações em 35 países, como centros de produção na Europa e América do Sul.

Experiência na área esportiva não faltava, contavam com transmissões de diversas ligas grandes e até da copa do mundo e UEFA Champions League, a liga viu o resumo e realizou um acordo onírico.
Assim na Terra como no inferno
A Mediapro não conseguiu pagar com o prometido, fugindo da responsabilidade, quebrando o contrato e deixando a Ligue 1 sem dono no próprio país. A venda pré-acordada dos direitos das temporadas de 2020 a 2024 representou um salto de 60% no valor em relação ao contrato anterior, indo para mais de € 1.2 bilhão. A empresa decidiu arcar com uma indenização de €100 milhões, mantendo de forma temporária sua transmissão até arranjar novos interessados pelos direitos.

O caso já se tornava um escândalo. O descumprimento de pagamentos em outubro e após em dezembro chegava a 325 milhões de euros, e durante esse período veio a crise trazida pela pandemia da covid-19 que apenas piorou o que já estava horrível.
Depois da tempestade
A liga teve uma queda espiral do dinheiro de transmissões na janela seguinte, com a novela pelos direitos domésticos de transmissão tendo propostas irrisórias. Houveram apenas três propostas, da DAZN, Discovery e Amazon, onde todas ofereceram um valor abaixo do estabelecido como mínimo, a liga estava a seis palmos abaixo do inferno. A Ligue de Football Professionnel (LFP), que organiza as duas primeiras divisões do país, afirmou que iria decidir sobre uma nova abordagem para a venda dos direitos que tente resolver o problema.
No final quem havia vencido o leilão foram a DAZN e BeIN Sports, essa segunda tendo como presidente uma figura central nessa trama, Nasser-Al Khelaifi, empresário Qatari e também presidente do PSG, os outros times viram a entrada do Oriente Médio com péssimos olhos, e a conversa de futebol passou para a política.

Ambos partilhariam o Campeonato Francês pela quantia de € 500 milhões anuais, cerca de R$ 3 bilhões na cotação atual, sendo €400 milhões da DAZN e €100 milhões da BeIN. Para mostrar o quão negativo foi essa nova venda, esse foi o pior acordo feito pela liga em 19 anos, e ficou cerca de € 100 milhões abaixo do obtido no ciclo de 2005 a 2008, há duas décadas atrás. A liga chegou no topo e caiu para abaixo do nível do mar.
Fazendo um comparativo direto, esse contrato vale menos que a metade do mesmo proposto pela Mediapro no começo da década. O acordo de ambas as partes será válido por cinco anos, para o ciclo que irá de 2024/2025 a 2028/2029.
A ruptura com o parceiro histórico
O Canal+ foi o principal difusor e financiador da liga francesa por décadas, ajudando a alavancar a popularidade do torneio desde os anos 1980 e 1990.

Antes de vir a MEDIAPRO e realizar o monopólio dos direitos o grupo propôs o maior valor até então. Juntamente com o BeIN registraram o valor de €726,5 milhões referente ao ciclo de 2016 a 2020, porém era impossível competir com a proposta fora da realidade realizada pelo grupo espanhol. E durante o ciclo provisório de 2021/2024, a competição foi transmitida por Canal+, BeIN e o estopim da ruptura, a Amazon Prime Video, uma gigante do entretenimento que se aproveitava da crise para entrar na briga. O Canal+ se recusou a pagar valores considerados desproporcionais e reduziu drasticamente sua participação na transmissão do torneio, marcando a primeira vez em 30 anos que não possuia a principal parte das transmissões.
Agora vai?
Nos termos do contrato entre a DAZN e a Ligue 1 era previsto que se a empresa não contasse com 1,5 milhões de assinantes em dois anos poderia haver a quebra de contrato por parte da empresa. Essa ação diminuiria um pouco o risco financeiro que o grupo tomava, a liga desesperada aceitou mesmo com a maioria dos clubes correndo riscos reais de falência pela dependência do dinheiro.
Assim começaria mais uma temporada, agora com a DAZN possuindo grande parte da transmissão e logo de começo realizou uma ação que enfureceu o público francês.

A grande parte dos jogos passariam através de seu programa pago, custando €40/mês em um campeonato sem incentivos e sem estrelas, um preço fora de realidade para a competição, o resultado foi um público historicamente baixo de telespectadores e a tomada de outra medida drástica.
Em 2025, apenas um ano de transmissões a empresa chegou a um acordo de rescisão com a LFP para a terminação do contrato após apenas um ano, com o grupo pagando uma indenização de €100 milhões pela quebra de contrato e outros €140 milhões em duas parcelas para os clubes pelo término precoce. A DAZN já não havia pago taxas referentes a €70 milhões alegando dificuldades operacionais, citando os problemas de pirataria devido ao valor e por outro lado a cooperação insuficiente de certos clubes em promover a liga e falhando em entregar conteúdos editoriais.
No meio de todo esse imbróglio o público francês parecia ter achado a solução pra todos os problemas, e ele vinha de outro continente.
O êxodo digital para o Brasil
No meio das transmissões da Eurocopa de 2024 a CazéTV anunciou que faria a transmissão da liga francesa em formato digital a partir da temporada 24/25, marcando assim mais um capítulo em sua rápida expansão no mercado brasileiro de transmissão.

Os próprios franceses ficaram sabendo das transmissões grátis e ensinaram a outros instalarem VPNs para burlar o bloqueio geográfico da plataforma e ver o campeonato de forma gratuita no canal brasileiro.
O presidente da LFP, Vicent Labrune sendo enfrentado por esse problema acabou com os jogos grátis durante um tempo e reforçou sua posição contra a pirataria, enquanto isso o chat da transmissão brasileira era tomado por mensagens em francês de um povo que só queria ver seu time de coração jogar.
A solução foi em vão
A CazéTV sendo confrontada por esse problema e com riscos de quebra no acordo comunicou em notas oficiais a pausa brusca das transmissões na plataforma até que a distribuição garanta que o bloqueio geográfico funcione corretamente, mantendo assim a vigência no contrato e escapando de problemas maiores.

O crime de pirataria na França é grave, impondo multas de até 300 mil euros e sentenças de prisão para download ilegal de produtos digitais, com a Justiça francesa endurecendo ainda mais o rigor entorno de provedores e redes de VPN no bloqueio de sites piratas e estrangeiros de filmes, séries e transmissões esportivas. Para o povo francês era melhor se arriscar do que continuar no preço abusivo oferecido pela DAZN.
A transmissora brasileira conseguiu manter os direitos de transmissão, possuindo a transmissão da Ligue 1 em território nacional até 2027, já na própria França o caos reinava e a crise só aumentava.
A atualidade desesperadora
Antes do contrato com a DAZN, a LFP já estudava a criação de uma plataforma própria, mas confiou no nome da marca inglesa, e agora que a empresa estava fora era hora de tomar outra decisão desesperada.
Assim, a menos de 2 meses para o começo da temporada 25/26 a liga não possuia um meio oficial para transmitir seu próprio produto, tendo apenas a minoritária BeIN que tinha direito de um jogo dos nove da rodada.
A partir desse pretexto surgiu a Ligue1+, o canal oficial do próprio órgão regulador do futebol francês que concentra a exibição do futebol no país.

Antes da criação oficial o órgão ainda tentou um acordo com o velho parceiro Canal+ para aumentar o alcance, mas a relação já estava fragmentada, com a liga pedindo €200 milhões e a empresa pretendendo pagar menos da metade, talvez oficialmente coroando o fundo do poço.
O sol não nasce para todos
Entre as consideradas cinco principais ligas europeias a Ligue 1 é a que recebe menos direitos e incentivos televisivos por uma margem abissal, totalizando €660 milhões divididos entre €500 milhões domésticos e €160 milhões internacionais. Em comparação a Serie A italiana que está em uma posição acima recebe apenas de forma doméstica €900 milhões, totalizando €1,10 bilhão em receita. Comparando diretamente com a gigante Premier League a liga francesa recebe apenas 17% de sua receita total, que totaliza €3,85 bilhões

O vão é tão drástico que o clube campeão da Ligue 1, o PSG ganhou da liga €55 milhões em média, e o lanterna da liga Inglesa, o Wolverhampton ganhou apenas de contratos a quantia de €131 milhões mesmo tendo uma campanha pífia.
Times que já carimbaram o principal palco da Europa na atualidade como o Stade de Brest e o Stade Rennais que acabaram terminando essa temporada no meio de tabela receberam cerca de €15 milhões a €20 milhões, uma quantia mínima comparada ao Hull City, equipe que subiu através dos playoffs da segunda divisão inglesa, a EFL Championship que recebeu mais de €220 milhões para lutar e se manter na principal prateleira, quantia que qualquer clube francês tirando o PSG poderia apenas sonhar.
Futebol francês, a liga de exportação de promessas
Sem o devido dinheiro que compunha a principal forma de verba dos times franceses a liga virou dependente do mercado, vendendo suas principais promessas e jogadores para continuar permanecendo na primeira prateleira, retirando pedaços de si aos poucos até não sobrar nada.

Poucos times que tem outras rendas como o PSG com o grande nome e patrocínio e outros já bem melhores estabelecidos como o Mônaco se aproveitam para pegar as principais promessas dos times inferiores, afundando ainda mais o abismo de qualidade na liga.
A fragilidade dos médios tradicionais
Clubes históricos do futebol no país como o Bordeaux, Saint-Étienne, Nantes e muitos outros contavam prioritariamente com o dinheiro de transmissão em sua verba para a temporada, com projeções de pelo menos €25 milhões para continuar evoluindo ou sequer operando, com a queda de incentivo televisivo veio também a dificuldade em atrair patrocinadores estáveis que não queriam colocar suas marcas em uma liga onde nem sabia por onde seria transmitida.

Todos os três citados devido a queda de orçamento vieram a cair de forma recente para a segunda divisão, com os Les Verts e os Les Canaris permanecendo na segunda prateleira para essa nova temporada e no caso do Bordeaux o buraco é muito mais embaixo.
O caso Bordeaux
O Girondins de Bordeaux é um clube mais que tradicional na história do futebol francês, em sua prateleira possui seis títulos de liga, quatro copas e quatro supercopas. A equipe contou com várias superestrelas em seu elenco, como o principal jogador de sua história, Zinédine Zidane que posteriormente se transferiria pra Juventus, Éric Cantona e atualmente possuia uma base sólida, revelando nomes como Jules Koundé e Aurélien Tchouaméni, o clube ainda possuiu jogadores brasileiros conhecidos como o jogador Malcom, ex-corintians que atualmente está no Al-Hilal da Arábia Saudita.

O clube já vinha de difíceis períodos financeiros, caindo em último na temporada 21/22 da primeira divisão e nunca mais vindo de encontro a seu devido lugar. A partir daí os Les Girondins se afundaram ainda mais em crises financeiras, não conseguindo pagar a quantia de inscrição para a terceira divisão e na atual temporada não conseguindo comprovar garantias financeiras, tendo o recurso rejeitado pela Direção Nacional de Controle de Gestão (DNCG), órgão fiscalizador financeiro do futebol francês. A consequência é o rebaixamento a nível regional, a sexta divisão francesa que excluí o clube até da copa do país.
O quase rebaixamento do Olympique de Lyon
No processo de análises de contas feito pelo DNCG, o gigante do cenário francês gerido pelo magnata americano John Textor não havia comprido com obrigações financeiros e como punição seria rebaixado de forma automática para a segunda divisão nacional.
Na temporada 24/25 o clube terminou em 6°, garantindo vaga para a Europa League, mas fora das quatro linhas a notícia ecoava forte, o aviso do órgão datava para novembro de 2024 que impediu a contratação de jogadores e acendeu o alerto para o rebaixamento automático devido a pendências. No final do calendário a equipe era dada como rebaixada, um gigante caiu e deixou um espaço enorme a ser preenchido no topo, isso devido a vários anos de investimentos sem retorno e a recorrência de outros meios como a venda do clube para o grupo americano Eagle Football Holding Limited para equilibrar suas finanças mergulhadas no débito.

O final dessa história, ao contrário do Bordeaux teve um final feliz, mas custoso. A federação aceitou o recurso e o clube pagaria €12,5 milhões de multa e uma penalidade de €50 milhões caso descumpra as regras de Fair Play financeiro da Liga nos anos seguintes, a dívida chegava a €175 milhões e para sua nova fase demitiu Textor e trouxe Michael Gerlinger como novo CEO do projeto.
Bordeaux, Nantes, Saint-Étienne e Lyon são provas vivas que tradição não paga contas, e mais que tudo, a própria federação afundou o futebol no país. Na situação atual, a crise no futebol francês tende a aumentar ainda mais.